3 de setembro de 2010

"A melhor maneira de viajar é sentir"

A frase do título é de Álvaro de Campos e, para mim, faz todo sentido. Viajar é viver alguns dias como um avatar não identificado de mim mesmo. Esse é um dos significados mais fortes. Viajar é ser livre, é ser rico (meus cartões gritam por socorro quando eu volto), é ser quem eu quiser ser. Sabe aquela fantasia de recomeçar a vida do zero, arrumando tudo o que a gente não gosta nela? Viajar me permite realizá-la, ainda que por pouco tempo.

De uns tempos para cá tomei a decisão de viajar mais, conhecer mais lugares, sair. Isso como meta de vida mesmo. Foi então que, esta semana, fiquei pensando sobre o porquê de querer viajar tanto assim.

Sair é fuga. E eu aproveito, viu? Para começo de conversa, eu minto muito em viagens. Muito mesmo. Mas nao é mentira do tipo: "sou rico e moro numa cobertura em Copacabana". É mais para: "autoestima? Claro que tenho! Sobrando. Quer um pouco?". Sim, quando eu viajo, fantasio sobre como seria se eu... E sabe que as pessoas acreditam?

Como seria se eu tivesse coragem de abordar fulano, que é tão lindo que jamais me daria bola? Já pensou nisso? Em sua cidade pode ser um mico. Viajando é o máximo, é história para contar, não para esconder. O lema é mais ou menos o bom e velho: "não sou daqui, não vim para ficar".

E como seria se eu dissesse que já fiz e aconteci, que não tenho problemas com quem sou, que estou muito feliz e que sou independente e não preciso do seu reconhecimento para me sentir bem? As pessoas acreditariam? Olha, já estou com frio na barriga só de pensar!

Isso sem falar que, admita, viajar nos faz sentir melhores em relação aos outros. Fala sério. Pode parecer mesquinho, mas é verdade. Viajar nos torna especiais diante dos olhos das outras pessoas, seja porque temos mais experiência, seja simplesmente pelo status de ter ido aonde outros ainda não foram. Nos torna atraentes, interessantes. Viajar alimenta o ego.

"Humano, demasiado humano". Né, Nietzsche? Talvez more aí a tal depressão pós-viagem. A vida volta a ser dura não pela rotina, mas pelo reencontro com a vida que criamos para nós mesmos e não sabemos direito como gerenciar para que fique melhor. Até a próxima viagem...

A melhor maneira de viajar é sentir
Álvaro de Campos

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Um comentário:

cronicas gulosas disse...

hoje em dia poucos viajam - a maioria leva as malas (e o celular, e a digital) para viajar...